A IA já entrou na sala de aula. Mas quem está conduzindo a conversa?

Em um ano 2000 imaginado, um professor literalmente introduz livros no cérebro de seus alunos. Essa automatização da aprendizagem acabaria assumindo uma forma aproximada: o uso de computadores nas escolas.

Françoise Foliot and one more author - Private collection Wikimédia France, Paris

CC BY-SA 4.0

Dados nacionais e uma pesquisa preliminar com educadores da Bahia revelam uma contradição: o uso da Inteligência Artificial cresce rapidamente, enquanto a orientação pedagógica ainda tenta alcançar o ritmo da tecnologia.

Imagine a cena.

É segunda-feira, logo no início da aula. O professor apresenta uma atividade de escrita e, antes mesmo de terminar a explicação, alguém pergunta:

— Professor, pode usar o ChatGPT?

Do outro lado da sala, uma voz responde:

— Eu já usei.

Um terceiro estudante levanta uma questão ainda mais difícil:

— Mas como a gente sabe se o que ele respondeu está certo?

A cena é ilustrativa, mas poderia acontecer hoje em muitas escolas brasileiras. A Inteligência Artificial não está mais esperando autorização do currículo para entrar na educação. Ela já chegou pelos celulares, pelas pesquisas escolares, pelos aplicativos e, muitas vezes, pelas tarefas entregues silenciosamente.

A questão deixou de ser apenas “os estudantes estão usando IA?”.

Agora precisamos perguntar: como estão usando, quem está orientando e o que acontece com a autoria quando a resposta aparece pronta?

A tecnologia correu na frente

Segundo dados da pesquisa TIC Educação 2024, apresentados pelo NIC.br, 37% dos estudantes usuários de Internet já utilizaram ferramentas de IA em pesquisas ou atividades escolares.

No Ensino Médio, o número chama ainda mais atenção: 70% dos estudantes, aproximadamente 5,2 milhões de jovens, disseram já ter utilizado esse tipo de tecnologia. Entre os professores da Educação Básica, 43% recorreram à IA para preparar conteúdos didáticos, o equivalente a cerca de um milhão de docentes.

Até aqui, alguém poderia concluir: a escola brasileira entrou definitivamente na era da IA.

Mas há outro lado dessa história.

Somente 19% dos estudantes disseram ter conversado com professores sobre como utilizar IA nas atividades escolares. Apenas 33% receberam orientações para reconhecer quando uma ferramenta produz informações falsas, incorretas ou preconceituosas.

A tecnologia entrou pela porta da frente, pela janela e pelo Wi-Fi. A conversa pedagógica, entretanto, ainda procura a chave.

Na Bahia, a IA começa nos bastidores da aula

Uma pesquisa preliminar realizada com 38 educadores da Bahia ajuda a enxergar mais de perto esse movimento. Como os participantes podiam marcar várias alternativas, foram registradas 133 indicações de uso da IA generativa.

O uso mais citado foi o planejamento de aulas, com 23 indicações. Em seguida apareceram:

  • elaboração de avaliações, tarefas ou exercícios, com 21;

  • criação de materiais didáticos, com 17;

  • formação docente, com 14;

  • produção multimídia e adaptação de conteúdos, ambas com 13 indicações.

Os números mostram algo interessante: a IA parece entrar primeiro nos bastidores do trabalho docente. Antes de conversar diretamente com o estudante, ela ajuda a preparar aulas, elaborar questões, organizar materiais e produzir documentos.

Isso pode ser uma oportunidade real.

Uma ferramenta capaz de produzir um primeiro rascunho pode reduzir o tempo gasto em tarefas repetitivas. Pode sugerir exemplos, reorganizar textos ou apresentar novas formas de explicar um conteúdo.

Mas existe uma diferença importante entre receber um rascunho e entregar à máquina uma decisão pedagógica.

O plano de aula que nunca conheceu a turma

Pense em uma situação hipotética.

Uma professora pede à IA um plano de aula sobre meio ambiente. Em poucos segundos, recebe objetivos, etapas, perguntas e uma proposta de avaliação. O documento parece impecável.

Mas há um problema.

A ferramenta não conhece os estudantes. Não sabe se a escola está próxima de um manguezal, de uma praia, de uma área industrial ou de um rio poluído. Não conhece a história do bairro, a linguagem da turma, as dificuldades de leitura nem as experiências daquela comunidade.

O plano pode estar correto e, ainda assim, não fazer sentido.

É nesse ponto que começa o trabalho que nenhuma resposta automática deveria substituir: transformar uma previsão genérica em uma decisão situada.

No Cordel 2.0, encontramos um desafio semelhante quando utilizamos IA na criação poética. A máquina pode sugerir uma rima tecnicamente perfeita, mas a palavra pode não carregar a oralidade, o sotaque, a memória ou a experiência de quem escreve. Por isso, a sugestão precisa passar pela escolha humana e pelo vínculo com o território.

A IA pode encontrar uma palavra que rima.

Mas será que ela sabe por que aquela palavra precisa ser dita?

“Burlar” atividades é o maior problema?

Na pesquisa com os educadores baianos, as respostas sobre os desafios enfrentados pelos estudantes somaram 106 indicações.

O uso da IA para “burlar” atividades foi o desafio mais citado, com 26 respostas. Depois apareceram:

  • dependência excessiva para tarefas simples, com 24;

  • dificuldade para verificar a precisão das respostas, com 20;

  • pouco entendimento sobre ética e autoria, com 17;

  • falta de critérios para selecionar ferramentas confiáveis, com 14.

A desigualdade de acesso recebeu cinco indicações. Isso não significa que seja irrelevante. Uma questão pode aparecer pouco na percepção imediata e continuar sendo estruturalmente decisiva. Diante desses resultados, surge uma tentação: transformar o debate sobre IA em uma investigação permanente para descobrir quem “copiou da máquina”.

Mas será que essa é a melhor resposta?

Fraude e dependência não são a mesma coisa. A fraude envolve regras, autoria e avaliação. A dependência aparece quando o estudante deixa de formular, escolher ou resolver até mesmo aquilo que conseguiria fazer sozinho.

Uma política baseada apenas em vigilância pode até encontrar textos suspeitos, mas dificilmente ensinará alguém a pensar melhor.

Talvez a pergunta mais educativa não seja: “Foi você ou a IA que escreveu?”

Talvez seja: “Você consegue explicar, defender e transformar aquilo que entregou?”

Estudo de Campo com Educadores da Rede Estadual da Bahia: Epistemologia da Inteligência Artificial na Educação. PPGEduC - UNEB.

Fluência não é verdade

Há outro dado que merece atenção: 20 indicações apontaram a dificuldade de verificar a precisão das respostas.

Os sistemas generativos escrevem com segurança. Organizam frases, apresentam exemplos e produzem explicações aparentemente coerentes. Essa fluência pode gerar uma ilusão perigosa: a impressão de que um texto bem escrito é necessariamente verdadeiro.

Não é.

Uma resposta pode soar convincente e conter datas inventadas, referências inexistentes, conceitos misturados ou interpretações equivocadas. Por isso, uma das perguntas mais importantes do letramento em IA talvez seja também uma das mais antigas da educação:

Como sabemos?

De onde veio essa informação?

Há uma fonte independente?

A ferramenta apresentou uma evidência ou apenas organizou palavras prováveis?

O estudante consegue distinguir certeza, possibilidade e opinião?

Verificar não significa apenas “corrigir a máquina”. Significa assumir uma posição diante do que foi produzido.

Agência humana: quem pode decidir e dizer não?

É nesse ponto que a ideia de agência humana ganha importância.

Agência não significa simplesmente manter uma pessoa diante da tela enquanto a máquina realiza todas as decisões. Significa preservar a capacidade de definir objetivos, interpretar resultados, discordar, modificar, interromper e responder pelo que foi feito.

Na educação, algumas perguntas ajudam a tornar essa ideia concreta:

  1. Para quê utilizar IA nesta atividade?

  2. Quem decide se a resposta é adequada?

  3. Como as informações serão verificadas?

  4. O estudante consegue explicar sua própria contribuição?

  5. Existe a possibilidade de discordar ou realizar a atividade sem a ferramenta?

Se essas perguntas não puderem ser respondidas, talvez a tecnologia esteja deixando de apoiar a educação e começando a reorganizá-la segundo sua própria lógica. A IA apoia quando amplia possibilidades, oferece alternativas e preserva o professor e o estudante como autores das decisões.

Ela substitui quando a resposta automática se transforma em regra, quando ninguém consegue questionar o resultado ou quando a eficiência vale mais do que o processo de aprendizagem.

A tarefa precisa mostrar o caminho, não apenas o resultado

Se um texto pronto pode ser produzido em segundos, talvez seja necessário repensar atividades que avaliam somente o produto final. Isso não significa abandonar a escrita, a pesquisa ou o trabalho escolar. Significa tornar o processo visível. Uma atividade pode incluir versões sucessivas, justificativas das escolhas, comparação entre fontes, apresentação oral, produção em sala e declaração sobre o uso da IA. O estudante pode mostrar:

  • qual foi sua pergunta inicial;

  • o que a ferramenta respondeu;

  • o que considerou inadequado;

  • quais informações verificou;

  • o que decidiu reescrever;

  • qual é sua posição final.

Nesse modelo, a IA deixa de ser uma autora escondida e passa a ser um objeto de análise. E o estudante não recebe pontos apenas por apertar “gerar”, mas por interpretar, escolher e assumir responsabilidade.

A pergunta continua aberta

Os dados nacionais mostram uma adoção acelerada. Os dados preliminares da Bahia revelam que os professores já utilizam IA principalmente na preparação do trabalho pedagógico, enquanto demonstram preocupação com dependência, autoria e verificação.

Não estamos diante de uma disputa simples entre aceitar ou proibir. Estamos diante de uma escolha mais profunda: a IA será usada para diminuir o trabalho de pensar ou para criar novas oportunidades de pensamento?

No Cordel 2.0, acreditamos que a tecnologia deve dialogar com a cultura, com o território e com a experiência humana. A máquina pode sugerir caminhos, mas não deveria decidir sozinha a direção da caminhada. Essa perspectiva atravessa as experiências do projeto, que conecta escrita popular, educação digital e uso crítico da Inteligência Artificial.

A IA já entrou na sala de aula. Agora precisamos decidir se ela ficará diante do quadro, oferecendo respostas prontas, ou se ocupará outro lugar: o de ferramenta que provoca perguntas, amplia repertórios e ajuda estudantes e professores a escreverem — com responsabilidade — os próximos versos dessa história.

E na sua escola: a IA já chegou? Quem está conduzindo essa conversa?

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