Carta para a Educação do Futuro
Salvador, 18 de julho de 2026.
Cara educadora, caro educador do ano de 2050,
Escrevo esta carta do meio de uma travessia. Reconheci-me artista ainda menina, aos doze anos, nas oficinas do Espaço Cultural Alagados, aqui em Salvador - o mesmo espaço onde, décadas depois, a primeira edição do Projeto Cordel 2.0 encontraria seu lar. Desde então, minha vida se organizou em torno da palavra: como poeta, como editora, como professora, como psicopedagoga, como agente cultural, sempre tentando costurar cultura, educação e comunidade. Durante a pandemia de COVID-19, quando o isolamento parecia apenas perda, encontrei em parceria com o pesquisador Carlos Vidal uma forma de transformá-lo em pergunta: o que aconteceria se a literatura de cordel - essa arte nordestina que aprendi a amar através de mestres como Patativa do Assaré e Bule-Bule - conversasse com a inovação tecnológica, em vez de temê-la? Dessa pergunta nasceu o Cordel 2.0, e é também dessa experiência concreta, de ver a periferia se tornar protagonista da própria narrativa, que escrevo hoje a você. Talvez, quando você ler estas linhas, a intersecção entre educação, cultura e tecnologia que hoje me parece tão nova já seja apenas o chão óbvio sobre o qual você caminha. Escrevo, então, não para explicar o futuro a você, mas para deixar um registro do que víamos - e do que temíamos, e do que ainda esperávamos - lá de 2026.
Oficinas Cordel 2.0 | Espaço Cultural Alagados | Maio de 2026.
Ao longo deste componente, discutimos como identidades são produzidas e por vezes apagadas, como a modernidade nos joga em um estado de fluidez permanente, e como a educação pode ser prática de liberdade ou instrumento de conformação. Nesta última trilha, três autores me ajudaram a pensar o que ainda falta dizer: Edgar Morin, Ailton Krenak e Byung-Chul Han. É com eles que quero dialogar aqui, porque acredito que suas ideias, lidas juntas, desenham um mapa possível para a formação humana que você, educador do futuro, estará conduzindo.
Sobre os saberes que a escola ainda fragmenta.
Edgar Morin nos convocava a repensar os sete saberes necessários à educação do futuro, e o primeiro deles - talvez o mais urgente - é o combate ao erro e à ilusão que nascem justamente de um conhecimento fragmentado, incapaz de contextualizar e de religar as partes ao todo. Em 2026, ainda ensinamos por disciplinas estanques, como se a realidade se organizasse em gavetas separadas. A inteligência artificial com a qual trabalho todos os dias, tem um potencial ambíguo nesse sentido: pode aprofundar a fragmentação, respondendo perguntas isoladas sem jamais ensinar a pensar a totalidade; ou pode, se bem orientada pela mão humana, ajudar a religar informações dispersas, tecendo pontes entre saberes que a escola tradicional insiste em manter separados. Se em 2050 você ainda encontrar esse dilema, saiba que ele já era visível para nós: a tecnologia nunca resolve sozinha o problema do conhecimento fragmentado, porque esse é, antes de tudo, um problema de escolha pedagógica e política.
Celeste e Carlos no Hub Salvador | Bairro do Comércio | Junho 2026
Sobre adiar o fim do mundo
Ailton Krenak nos lembra de que a separação entre humanidade e natureza é uma invenção recente e nada universal, e que existem - e sempre existiram - outras formas de habitar o mundo, que não colocam o planeta como recurso a ser explorado até o esgotamento. Escrevo esta carta em um momento em que as mudanças climáticas já não são hipótese distante, e imagino que, para você, em 2050, elas sejam parte do cotidiano de um jeito que ainda tentamos evitar. Krenak não nos oferece uma solução técnica: ele nos propõe adiar o fim do mundo por meio de outras formas de vida em comum, menos hierarquizadas entre humano e não humano. Para a educação, isso significa que a formação planetária que buscamos não pode ser apenas uma camada de conteúdo ambiental somada ao currículo de sempre; ela exige repensar a própria relação entre quem ensina, quem aprende e o território em que ambos vivem - algo que já víamos, de outro modo, quando comunidades como a da Península de Itapagipe, aqui em Salvador, transformavam suas memórias e seu pertencimento em literatura de cordel.
Sobre o cansaço que a tecnologia pode aprofundar
Byung-Chul Han descreve a nossa época como uma sociedade do cansaço, na qual o sujeito já não é oprimido por uma autoridade externa, mas se explora a si mesmo em nome de um desempenho sem limites, até o esgotamento. Trabalhando com educação a distância e com inteligência artificial, vejo diariamente essa promessa de produtividade infinita: mais cursos, mais conteúdos, mais dados, tudo disponível a qualquer hora. Se não tomarmos cuidado, a tecnologia educacional do seu tempo pode ter aprofundado exatamente esse cansaço que Han descrevia, transformando estudantes e professores em gestores incansáveis de sua própria performance. Por isso, deixo a você uma pergunta mais do que uma resposta: como formar pessoas críticas e planetárias sem submetê-las a essa lógica de rendimento contínuo? Talvez a resposta esteja em recuperar o tempo lento da experiência, da leitura poética, das histórias contadas à noite, da roda de conversa sem métrica de desempenho - um tempo que já tentávamos proteger em 2026, em meio à aceleração das telas.
Sobre políticas públicas que não podem depender de cada eleição
Como é sabido, escrevo esta carta em 2026, ano eleitoral no Brasil, e é impossível não pensar em como as políticas públicas de educação, direitos humanos e diversidade que estudamos neste componente vivem sob uma ameaça recorrente: a de serem tratadas como política de governo, que muda a cada mandato, e não como política de Estado, capaz de atravessar eleições sem retroceder. Programas de formação para a diversidade étnico-racial, de gênero e de inclusão digital, iniciativas de fomento à cultura popular como o Cordel 2.0, e o próprio acesso equitativo às tecnologias emergentes dependem de continuidade orçamentária e institucional que nenhuma euforia ou desilusão de urna deveria interromper.
Encontros vários | Biblioteca Central | Julho 2026
Se algo aprendemos, lá de 2026, é que direitos consolidados podem ser rapidamente esvaziados quando dependem apenas da vontade política de um ciclo eleitoral - e que cabe também à Educação formar cidadãos capazes de exigir que esses direitos sejam garantidos independentemente de quem esteja no poder. Espero que, em 2050, você já não precise escrever cartas como esta, e que a garantia de uma educação pública, plural e comprometida com os direitos humanos seja, para você, um dado adquirido, e não uma disputa renovada a cada quatro anos.
O que fica, então…
Morin, Krenak e Han escrevem de lugares muito diferentes, mas, lidos juntos, apontam para um mesmo alerta: nenhuma tecnologia, por mais avançada que seja, substitui a decisão ética de que tipo de ser humano e de que tipo de mundo queremos formar. A educação do futuro que desejo para você não é aquela que apenas domina novas ferramentas, mas aquela que as coloca a serviço de uma formação mais humana - capaz de lidar com o erro e a incerteza, como pedia Morin; capaz de reconhecer outras formas de vida e de pertencimento ao planeta, como propunha Krenak; e capaz de resistir ao cansaço e à autoexploração, como alertava Han. E, se a arte ainda tiver o lugar que hoje lutamos para lhe garantir, que ela continue sendo esse espaço onde se pode errar, sonhar, sentir e criar sem a urgência de produzir resultado imediato.
Escrevo, por fim, com a esperança de que, em 2050, você tenha conseguido ir além de onde nós paramos - e com a humildade de saber que toda carta ao futuro é, também, uma carta que tenta convencer a si mesma de que ainda vale a pena tentar.
Semana da Computação | Universidade Federal da Bahia | Agosto 2026
Com afeto e esperança planetária,
Celeste M. Farias
REFERÊNCIAS
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez; UNESCO, 2000.

