Letramento Digital em IA como ato de Justiça Social nas Periferias
Pensar o letramento digital em Inteligência Artificial nas periferias é compreender que o acesso às tecnologias não pode ser reduzido ao simples uso de ferramentas. Trata-se de uma questão de justiça social, pois as tecnologias que hoje organizam a vida cotidiana — da escola ao trabalho, da comunicação aos serviços públicos — também produzem novas formas de inclusão e exclusão. Quando a periferia é apenas consumidora passiva de tecnologias criadas em outros centros de poder, ela permanece submetida a uma lógica desigual.
Por isso, letrar digitalmente em IA é criar condições para que sujeitos historicamente marginalizados possam compreender, questionar e produzir sentidos no mundo algorítmico. Milton Santos, ajuda a compreender essa questão ao mostrar que o território não é apenas um espaço físico, mas um campo de relações, disputas e possibilidades. A periferia, nessa perspectiva, não deve ser vista como lugar de ausência, carência ou atraso, mas como território vivo, produtor de cultura, inteligência, criatividade e resistência. O problema não está na periferia, mas na forma como a globalização técnica e econômica concentra recursos, infraestrutura e oportunidades em determinados lugares, deixando outros à margem.
O letramento em IA, quando situado no território, pode transformar a tecnologia em instrumento de leitura crítica do mundo e de fortalecimento comunitário. Paulo Freire, por sua vez, ensina que toda alfabetização verdadeira é também uma leitura do mundo. Antes de aprender a palavra, o sujeito lê sua realidade, suas dores, suas esperanças e suas contradições. Aplicado à Inteligência Artificial, esse princípio nos permite dizer que o letramento digital não deve ensinar apenas “como usar” uma ferramenta, mas também “para quê”, “por quem”, “contra quem” e “a favor de quem” ela opera. Uma pedagogia crítica da IA precisa revelar que os algoritmos não são neutros: eles carregam escolhas humanas, interesses econômicos, visões de mundo e, muitas vezes, reproduzem desigualdades já existentes.
Uma imagem vale mais que mil palavras..
Nesse sentido, o letramento digital em IA nas periferias deve ser mais do que treinamento técnico. Ele precisa ser uma prática de emancipação. Ensinar jovens, educadores e comunidades a dialogar com sistemas inteligentes, criar prompts, compreender dados, reconhecer vieses e produzir conteúdos autorais é abrir caminhos para uma participação mais ativa na cultura digital. Mas essa participação só será justa se respeitar os saberes locais, a oralidade, a memória, as linguagens populares e as formas próprias de criação presentes nos territórios periféricos. A IA não deve substituir essas vozes; deve ser apropriada criticamente por elas.
Há, portanto, uma dimensão política nesse processo. Quando uma comunidade periférica aprende a compreender e criar com IA, ela desloca o lugar que lhe foi historicamente atribuído. Deixa de ser apenas objeto de políticas públicas, estatísticas ou discursos externos, para tornar-se sujeito produtor de conhecimento, arte, tecnologia e futuro. Isso dialoga profundamente com Freire, para quem a educação libertadora não deposita conteúdos nos educandos, mas cria condições para que eles se reconheçam como autores da própria história.
No campo da IA, essa autoria significa não aceitar passivamente a automação da vida, mas intervir nela com consciência crítica. Ao mesmo tempo, a reflexão de Milton Santos nos alerta para o risco de uma tecnologia que amplia a desigualdade quando se instala sem compromisso com o território. A técnica pode servir tanto à dominação quanto à libertação. Tudo depende do projeto político, pedagógico e social que a orienta. Uma IA pensada apenas pelo mercado tende a transformar pessoas em dados e territórios em zonas de consumo. Já uma IA apropriada criticamente pelas periferias pode se tornar ferramenta de expressão, denúncia, criação, organização comunitária e imaginação de outros mundos possíveis.
Por isso, para o projeto Cordel 2.0, defender o letramento digital em IA se trata de um ato de justiça social, que afirma que o futuro tecnológico não pode ser privilégio de poucos. As periferias não devem chegar atrasadas à era da Inteligência Artificial; devem participar de sua reinvenção. Entre Milton Santos e Paulo Freire, aprendemos que território, consciência crítica e emancipação caminham juntos. Letrar em IA, nesse horizonte, é muito mais do que ensinar tecnologia: é fortalecer sujeitos, reconhecer culturas, disputar narrativas e garantir que a inteligência do futuro também fale com sotaque popular, memória coletiva e compromisso com a dignidade e agência humana.

