Um laboratório educacional para compreender, explicar e criar: Inteligência Artificial, Cordel e poesia popular como método de Agência Humana.

Um laboratório educacional para compreender, explicar e criar | Por Carlos J. Vidal Guerrero.

Carlos Vidal e Carlos Luz apresentando as categorias da maquina de Turing com sucata de um PC: Armazenamento, Processamento e Controle.

A Inteligência Artificial Generativa (IAG) já pode ser compreendida como um autêntico fato social durkheimiano, iniludível e as vezes até constrangedor. Contudo, não gosto de pensá-la pessimistamente como um novo panótico ou Leviatã; ainda assim, ignorá-la pode certamente nos conduzir pela via quimérica de Goya, na qual essa criação racional pode devir em perdição: “O sonho da razão produz monstros”. Nesse sentido, o laboratório se apresenta como um movimento de letramento que promove uma visão esperançosa da humanidade imbricada com as IAs, sem ingenuidade, mas com criticidade criativa.

A tecnologia das IAs entrou definitivamente no cotidiano das escolas, universidades e espaços culturais. Ferramentas capazes de produzir textos, imagens e respostas complexas levantam novas perguntas pedagógicas que são válidas tanto dentro como fora da sala de aula formal: como educar ou habitar em um mundo onde máquinas também escrevem e parecem saber mais do que eu e meus professores?

Diante desse cenário, o Laboratório Cordel 2.0 propõe colocar as mãos na massa da escrita poética, mobilizando, na prática, a tríade compreender, explicar e criar. Assim, a proposta vai muito além da dicotomia entre proibir ou adotar tais tecnologias. Em vez disso, aposta em um caminho mais promissor: transformá-las em objeto de aprendizagem e em ocasião para educar a liberdade de escolha por meio da criação textual literária. Nessa direção, a tradição do cordel inspira e impulsiona uma escrita criativa, rimada e conectada ao território histórico e social.

Foi a partir dessa perspectiva que surgiu o ecossistema educacional gamificado do projeto Cordel 2.0; um laboratório digital que integra tecnologia, cultura popular brasileira e criatividade linguística. Seu objetivo é, ao mesmo tempo, simples e ambicioso, ajudar jovens, adultos e idosos a compreender, explicar e criar em um mundo cada vez mais povoado por sistemas inteligentes.

Um laboratório educativo de IA e linguagem

O conjunto de aplicativos do Cordel 2.0 funciona como um ecossistema pedagógico experimental. Cada app foi pensado como uma pequena experiência educacional que explora um aspecto distinto da relação entre humanos e inteligência artificial dentro do processo de escrita. No entanto, para que tal letramento se estabeleça, foi definido um recorte epistêmico particular, no qual a Inteligência Artificial Generativa é delimitada por dois componentes materiais e técnicos: a heurística de bases de dados dinâmicas (Tensores de Fluxo) e a estocástica de vetores (Mecanismos de Atenção). Esse recorte epistemológico explica o método de desenvolvimento de apps propedêuticos, ou preparatórios para a IA, mas ainda sem IA.

Ou seja, em vez de apresentar a tecnologia como algo mágico ou distante, os aplicativos permitem que estudantes interajam, experimentem e reflitam sobre como essa tecnologia da IAG funciona. Alguns apps operam como motores heurísticos, enquanto outros trabalham apenas com estocásticas rudimentares; é assim que os participantes vão adentrando a construção de versos, a criação de rimas e o aprimoramento semântico e reflexivo da própria escrita.

A arquitetura pedagógica do sistema organiza essas experiências em três eixos principais: Entender, Explicar e Criar.

Princípios que o laboratório adota como background de práxis.

Como funcionam as inteligências artificiais? Os primeiros passos.

O primeiro passo é compreender como sistemas generativos operam. Para isso, indicamos dois recursos open source, que são parte de um programa de pesquisa aplicada de um grupo de Universidades da Finlândia para o sistema educativo escolar básico.

Estas ferramentas, Breakable Machine e Gen-AI, funcionam como laboratórios de experimentação, nos quais estudantes podem observar de forma lúdica e sinestésica como as respostas são geradas, comparar resultados e identificar inconsistências.

Essa abordagem permite discutir temas importantes na dinamicidade do diálogo com colegas e o educador, tais como: racismo algorítmico, limites dos modelos de linguagem como erros e “alucinações” da IA, influência do prompt na geração de respostas e confiabilidade de conteúdos automatizados. Ao testar e enxergar em tempo real os sistemas de machine learning simplificados e protegidos de ponta a ponta para segurança de menores de idade, estes apreendem a comparar e até “romper” tais sistemas, os estudantes deixam de ser usuários passivos e passam a desenvolver letramento crítico em inteligência artificial ao vivo.

Essa primeira camada de recursos educativos gamificados, introduzem uma atitude crítica e reflexiva que se irá aprimorando no decorrer do trabalho no laboratório, em simultâneo com a escrita criativa e de teor autoral.

Entender, Explicar e Criar: o fluxo do laboratório do Cordel 2.0

No nosso laboratório, a tecnologia não substitui o poeta; ela serve como uma nova ferramenta para afiar o lápis e a mente. Criamos um ecossistema de aplicativos pensados para guiar o participante desde o primeiro estalo de uma ideia até a publicação da sua poesia e ou escrito.

Entenda como funciona cada parte desse sistema que já conta com uma estrutura operativa, mas ainda está em desenvolvimento:

1. ARARA: O Despertar da Ideia.

Arara app.

A ARARA é a porta de entrada. Sabe quando você quer escrever, mas a página em branco parece assustadora?

  • O que faz: Ela foca na organização e na estrutura das ideias e sentimentos antes mesmo de virarem rima. É uma "IA Educativa" que ajuda você a entender os símbolos e os significados por trás da poesia (semiótica).

  • O que vai agregar no futuro além do Cordel: Ela também está sendo preparada para ajudar na escrita acadêmica, traduzindo as competências da educação nacional em indicadores (BNCC), provando que quem sabe fazer um bom cordel também domina outros géneros de escrita.

2. INANNA: A Mão na Massa (Ritmo e Rima).

Inanna app, uma proto IA de rimas.

A INANNA é uma gata siamesa onde o jogo acontece de verdade. Aqui o foco é na prática da forma poética e ser testado/a na criatividade da rima.

  • Jogo de Quadras: Um exercício prático para você treinar os primeiros versos.

  • Caderno de Sextilhas: Usando uma camada leve de Inteligência Artificial (Gemini Flash 2.5), este aplicativo ajuda você a montar as famosas estrofes de seis versos, cuidando para que a estrutura, o ritmo e a rima estejam em harmonia com a tradição cordelista.

3. IZA: O Espaço da Reflexão e do Diálogo

Iza app.

A IZA é inspirada em na ‘ancestral’ tecnológica ELIZA, e se comporta como aquela mentora que nos faz pensar. Com diversas personalidades para escrever a vontade, ela não entrega a resposta pronta; ela ajuda a refletir sobre o que você está escrevendo.

  • Fase Humanista: Inspirada em diálogos filosóficos (como os de Sócrates), ela conversa com o autor para que ele tenha consciência do que quer dizer ao mundo.

  • Caminho para a Ciência: No futuro, essa mesma base de conversa ajudará participantes a transformarem seus conhecimentos em escrita científica e produções mais profundas.

4. JORNADAS DO TERRITÓRIO: O Coração de Tudo.

Jogo Jornadas do território (em construção)

As JORNADAS não são apenas um app, mas o eixo que une tudo e tem previsão de estar operativo em Julho de 2026.

  • O que significa: É o momento em que a tecnologia sai da tela e encontra o chão do bairro, a cultura local e a história da comunidade. É o que garante que a poesia produzida tenha "cheiro de povo" e pé no território, integrando tudo o que foi aprendido no laboratório com a vida real.

Conclusão: A Poética da Liberdade na Era dos Algoritmos

Assim, o Laboratório Cordel 2.0 não é apenas sobre aprender a usar ferramentas digitais; é sobre reivindicar o papel do ser humano como criador consciente em um século automatizado. Ao unirmos a métrica rigorosa da sextilha de cordel à complexidade dos vetores da IA, mostramos que o "sonho da razão" não precisa produzir monstros, mas pode, sim, parir novas formas de beleza e entendimento.

Neste ecossistema, o letramento crítico funciona como um antídoto ao deslumbramento passivo. Quando o participante utiliza a ARARA, a INANNA ou a IZA, ele não está apenas gerando texto; ele está desmistificando a "caixa-preta" da tecnologia. Ele aprende que a IA pode sugerir uma rima, mas apenas ele, fincado em seu território e em sua história, pode dar a ela o peso da vivência e o sopro da alma popular.

Ao final desta jornada, o que entregamos ao mundo não são apenas estrofes processadas por silício, mas cidadãos capazes de compreender a lógica do seu tempo, explicar suas próprias escolhas e criar realidades que honram o passado enquanto abraçam o futuro. O Cordel 2.0 prova que a tradição é um movimento vivo e que a tecnologia, quando mediada pelo afeto e pela ética, é apenas mais um fio na rica tapeçaria da nossa cultura.

A caneta mudou, o suporte evoluiu, mas a voz — essa continua sendo, soberanamente, nossa.

Você está preparado ou preparada, venha com a gente!

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Cordel 2.0: Entre Tradição e Tecnologia